Quando uma história começa, é preciso conseguir prender atenção da pessoa desde a primeira linha. E o que melhor que uma criança, arte e uma pitada de suspense para isso?

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Arte, uma pitada de sangue,
prosa e poesia.


Ele estava escondido atrás de um dos quadros da mãe. Ele não se mexia e apenas ouvia a irmã sussurrar para as paredes. Ela fazia isso todos os dias, à tarde. Era a primeira vez que Arthur ficava tão próximo.
O nome daquilo que ela fazia, ele não sabia. Entretanto, sua irmã parecia uma menina mais madura. Ela falava palavras bonitas. Anos mais tarde, ele veio a descobrir que o nome daquilo que ela falava era poesia. Claro. Descobriu que ela não “falava” ela “declamava”. Porém, com três anos de idade é difícil saber essas palavras. São compli-cadas.
Naquele dia em especial, a mãe deles não estava no atelier, o que era um mila-gre. Ela sempre passava quase todas as horas da tarde dela em seu cantinho favorito. Sentada em um banquinho, com uma paleta de tintas na mão direita e um pincel na es-querda, trabalhando em alguma tela posta sobre um cavalete de madeira bonita dela. A mãe dos gêmeos era um doce de mulher. E conhecida.
Maria Clara Gaerde se recusara a ter o sobrenome do marido em seu nome, dizendo que ela queria ser lembrada com seu próprio nome, então, jamais colocou o nome “Bizerra” no fim. E foi assim que ela passou a assinar suas telas. A princípio, ela era apenas mais uma pintora, quase anônima, no meio de tantos talentos. Então, depois do nascimento de seus filhos, ela ganhou uma nova inspiração e passou a ser conhecida. O suficiente para ter seu atelier cheio em cada uma de suas exposições. O mesmo para conseguir uma boa quantia em dinheiro por cada um de seus quadros. Algo que, pode ter certeza, faria ela se arrepender pelo resto de sua vida. Será que seria por muito tempo?
Naquela tarde fatídica – a qual deu início à história – havia, espalhadas pelo galpão, umas telas em branco.
E no meio delas, estava Cecília. Cecília, sua poesia. E um homem.
O tal homem.
- Menina, aconselho que fique calada – disse o estranho, pondo a mão no om-bro da garotinha. Deve-se saber que não se fala baixo e alarmante com uma menina de três anos, todavia, ele não sabia – O titio só vai pegar o dinh...
E Cecília pôs-se a gritar. Chamou pela mãe, pelo irmão. Alguém, ela já havia gritado. Mas antes de uma resposta voltar, ocorre um estouro. O barulho ecoa pelo cô-modo, vaza pelas janelas e atraí mais gente que o grito da pobre criança. Na porta do atelier, a mãe e o pai. Dentro, o assassino, a garota e o menino. A menina tombada sobre uma tela.
O garoto a soluçar.


Anos se passam. O assassino ainda sofre psicologicamente pelo assassinato de uma cri-ança, entretanto deve sofrer mais por estar na prisão. A mãe dos gêmeos já está morta – mas isso ainda vai ser explicado – e o pai já arranjou outra esposa e uma outra filha (que acaba de nascer). O irmão sobrevivente – coitado – ainda está vivo. Não se pode dizer o mesmo das pessoas ao seu redor, uma vez que ele gosta de brincar com elas.
E a tela “pintada” a sangue ainda existe. Escondida entre tralhas e lixos no só-tão da casa velha. Mas ele ainda tem 13 anos aqui. Relaxe, a história vai seguir.