Capítulo 6
Toda criança já teve um cachorro. Mas o que acontece com as crianças que crescem ainda querendo um?
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Aquele esquema de cores com defeito logo o indicou a realidade que era seu sonho. Novamente.
Vitor localizou-se. Sua imagem real estava presa diante dos olhos de um garoto. Mas aquele garoto não olhava para ele e sim para além dele. E ele já sabia com quem toparia ao virar de costas.
- Vitinho tá com medo? – saudou aquela voz tão conhecida – Ou tá com ciú-mês? Vai, Vitinho, corre pra mamãe e diz o que aconteceu!
E a risada explodiu.
No quarto escuro, o inspetor Paulo Vitor mexia-se inquieto em sua cama. O relógio em seu pulso marcava duas da matina. Sozinho, em sua cama de casal, se alguém o visse acharia estar acordado. Mas seus olhos estavam fechados e era a respiração acelerada que enganaria um visitante.
- Não – o garotinho disse, apertando os lábios e enxugando os olhos –, eu não vou falar com a mamãe...
O mais velho parou de rir. Ele não esperava essa reação do caçula. Talvez o Vitinho começasse a ver que seria inútil falar com a mãe inválida dos dois.
- Sabia escolha, maninho – disse, aproximando-se do garoto e pondo a mão sobre sua cabeça – Pode deixar que eu te dou um belo presente amanhã...
-... Porque eu sei que a mamãe não vai conseguir fazer nada – continuou o garoto, como se, agora, tivesse tomado a coragem que havia começado – Então, eu vou até a polícia e falo com o papai.
O visitante o via pela janela. Ele adorava pessoas que moravam em casas baixas. Sempre gostou de ver a confiança que as pessoas tem em coisas são pequenas. Mas o visitante gostava disso. Segurança.
Aproximou mais o rosto da janela, encostando-o nela. O vidro estava gelado. Era uma graça o residente ter esquecido a cortina aberta aquela noite. Ou isso ou talvez fossem aqueles minutos em que o visitante estivera dentro da casa preparando a surpresa para o pobre inspetor.
Eu sei exatamente o que quero, doce Vitinho. Você sempre me tentou e eu sempre fui do tipo que gosta de maçãs*.
O menino caiu.
- Você não vai a merda de lugar nenhum.
Vitor estava sob o corpo do irmão mais velho, preso ao chão, com uma arma apontada para sua cabeça. A dúvida entre respirar e viver lhe atingira em cheio. Doía tanto quanto o soco que levara no rosto, há poucos segundos antes.
- Sabe por quê? – continuou o irmão. O tom de ameaça calma fazia o garoto perceber a seriedade – Porque você não vai querer morrer antes de fazer 10 anos... ou vai?
O garoto apenas sacudiu a cabeça. Não chorava.
- Bom menino – respondeu o mais velho, desencostando o revolver da testa do garoto. Ainda prendia o irmão ao chão. Vitor permitiu-se respirar – Pensando bem...
O gatilho foi puxado.
Suado, com dor de cabeça e de difícil respiração, Vitor acordou em seu quarto escuro e demorou a perceber que estivera sonhando. O mesmo pesadelo que marcara a sua infân-cia.
Levantou-se, foi a cozinha e bebeu um copo de água. Estava gelada demais. Bebeu outro e começou a fazer café.
Então reparou. Sobre a mesa da cozinha, uma caixa. Aquela caixa não estivera ali antes de dormir e ele não se lembrava de ser sonâmbulo. Nem de ter aquela caixa.
Abriu a gaveta da cozinha e puxou duas facas de corte. Foi ao quarto, atento, e pegou seu revolver embaixo da cama. Acendeu a casa toda, após verificar cada cômodo. Não havia ninguém em casa, a não ser ele. Voltou para a cozinha e para seu café. Mais tarde ligaria para a delegacia e mandaria alguém fazer vistoria em sua casa.
A caixa o incomodou.
Então reparou que, na frente dela, havia uma fotografia. Um cão morto que pareceria dormir, salvo o fato que escorria sangue de um ponto preto em sua testa.
Vitor abriu a caixa e, dentro, um filhote de cachorro dormia tranquilamente. Um filhote exatamente igual ao cachorro da foto. Sua versão mais nova. O inspetor o-lhou a parte de trás da foto.
Algumas pessoas merecem uma segunda chance de ficar com quem gosta, caro inspetor. Aproveite-a bem.
* nota do autor: aqui o visitante faz ligação ao fruto proibido e a relação de aceitar provocações.
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