A identificação de um corpo é quando começam a ver os traços de uma pista. Só que essa pista pode ser muito longíqua. Ou infinita.

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Nem toda mentira contada
deixa de ser verdade



- O indivíduo se chama Alexandre Maciel, tem 18 anos. Não sei quanto a sua vida, afi-nal, não é para isso que sou pago – ele fala. O corpo ainda estava descoberto sobre a mesa. E despido – Todavia, na análise, obtive alguns resultados, só que um desses resul-tados, realmente me chamou atenção – uma pausa – Vou explicar o motivo da morte – ele viu os olhares dos policiais cobrando –, as observações são coisas minuciosas de um velho...
O legista calçou as luvas descartáveis e ofereceu um pacote com um par a cada um presente.
- Continue, por favor, doutor.
- Certo, certo – o velho se aproximou do corpo – Como podem ver, o corpo foi perfurado em diversos lugares com as pontas de pincéis e, constatei, essa foi a causa da morte.
- Está nos dizendo – lentamente Paulo Vitor disse, como quem não ousasse pronunciar as próximas palavras – que a vítima estava viva ao ver cada um desses pincéis penetrarem seu corpo?
- Sim, Vitor – o médico-legista confirmou. Paulo Vitor viu-se assaltado por medo, repulsa, ódio e um sentimento incompreensível – Pelas análises, pude ver que o primeiro lugar que ele cravou um pincel foi aqui – e apontou para o rasgo de carne já enegrecida que ficava no pé esquerdo da vítima – Como podem ver, ele foi subindo em espiral até que chegou aqui – apontou para os testículos da vítima – Aqui o choque foi tão grande que ele teve um espasmo de lucidez e, depois, desacordou completamente.
- Espasmo de lucidez?
- Ah, sim, o corpo estava dopado. Foi achada uma quantidade excessiva de Dramin em seu corpo. Esse remédio é usado para evitar náusea, inibindo a acetilcolina nos sistemas vestibular e reticular, responsável pela náusea. Contudo, esse atua, também, reduzindo a pressão arterial, assim, causando sonolência no indivíduo. Assim, como podem imaginar, foi mais fácil para o nosso assassino cometer seus atos hediondos com a vítima sem que ela gritasse – ele abriu a boca do cadáver – Claro, e o fato de ele ter cortado a língua da vítima também ajuda.
- Como?
- Duas informações que me deixaram curioso – o médico falou, erguendo o indicador e o dedo médio – A primeira é essa da língua. Não vejo motivo para cortar a língua da vítima...
- Nosso assassino é um possível sociopata, talvez até um serial killer – Grazielle informou ao doutor, fazendo os olhos do outro brilharem de interesse – Espero que se lembre que não se pode esperar muita coisa deles, a não ser uma marca registrada.
- Sim, sim – ele deu um pequeno sorriso – Isso responde à curiosidade um. Todavia, ainda me resta uma observação a fazer: encontrei em seus testículos pêlos de púbis, o que indica...
- Que ele teve uma relação sexual há pouco tempo – Paulo Vitor disse, já vol-tando comum irritação – Sabemos o que quer dizer, doutor – um a pausa, não quebrada por ninguém, então o inspetor continuou – Se o senhor não tem mais nenhuma informa-ção a acrescentar, creio que voltarei para minha sala. Tenho que informar a família do garoto.
- Sim, sim. Mais nada a acrescentar...
Paulo Vitor se retirou, seguido pelos outros policiais.
- Ah! – disse o miúdo médico excêntrico – Bela moça, poderia informar ao inspetor que a vítima morreu de cabeça para baixo?
- Sim, já sabemos, doutor. Afinal, acredito que todos tenham visto a cena do crime...
- Não, minha querida – ele disse afavelmente – Não viram? Ele não morreu lá. Aquilo foi apenas uma montagem para assustar. A vítima morreu entre 12 e 14 do dia anterior... Sendo muito provável que ele tenha morrido próximo das 13.
Grazielle encarou o doutor. Seus olhos estavam incrédulos.
- Ele teve o corpo transferido para aquele galpão – continuou – Afinal, se ele tivesse matado o corpo lá, ele teria deixado alguma pista, e, como sabem, não há ne-nhuma marca no corpo que não seja a das agressões dos pincéis. Nenhuma digital, ne-nhum pêlo de roupa... E, o principal, o sangue dele teria pingado e escorrido para, exa-tamente, acima do álbum, que, se não me engano, estava limpo – uma pequena pausa – E outro: aquele lugar foi totalmente limpo. Paredes pintadas, montado aquele mural... tudo minuciosamente arquitetado. Se nosso assassino tivesse matado a vítima lá, teria sangue por todo o cômodo e não apenas aquele pequeno círculo em torno das fotografias. E, claro, assim só resta o sangue ter sido montado ali.


- Acredito que todos nessa sala já haviam pensando nisso, Lorença – foi a resposta do inspetor Vitor ao ouvir as informações adicionais. Ele voltara a ignorar o primeiro nome dela – Não é nenhum adicional o que nos disse.
Como se tivesse levado uma bofetada na cara, Grazielle estacou e ergueu as sobrancelhas. Mau humor de volta à cena.
- Por sinal, por que não se retira por hoje?
A pergunta seria uma gratificação. Se tivesse vindo de outra pessoa, se não tivesse aquela insinuação de “se você não pode/consegue fazer nada, é melhor não atrapalhar”. Ela teria sorrido com o clichê de “dê-lhe a outra face”. Não fosse o fato que lhe haviam roubado o direito de escolha.
Pôs um sorriso nos lábios.
- Boa tarde, Tom.


- Claro, amor, não há nenhum problema – Arthur estava no celular com Grazielle – Na verdade, acho que vai ser bem interessante se você aparecer por aqui. Eu estou na reta final daquele quadro que pretendia lhe fazer segredo – ele ouviu um pouco – É, esse mesmo. Então, eu continuarei a não deixar você ver ele – ele sorriu maliciosamente – Mas deixarei o quadro de lado assim que chegar aqui...
Enquanto falava, ele ergueu os olhos para a prateleira ao lado da porta. Seu pequeno atelier era bagunçado e o cheiro de tinta se mistura ao de poeira e de algum cheiro forte que vinha de uma lata em um banco alto. Ele mantinha um pincel na mão esquerda enquanto falava ao celular. Na tela, um casala sentado em um banco. Vagamente, a imagem dos dois juntos, e da paisagem que se mistura às roupas, lembrava um coração.
-... Óbvio que sim – ele parou por mais um segundo – Ok, amor. Deixa eu desligar, caso contrário, você vai chegar e eu não terei escondido a tela.
Pôs o pequeno aparelho ao lado da lata. Olhou ao redor. Era a bagunça habitual. Muito bem organizada, obrigado. Duas telas foram retiradas da sala.


- Era mesmo necessário dizer isso a ela, Vitor?
O inspetor ignorou a pergunta.
- Esse caso não é o único caso que temos, Tom – ele sorriu – E ela realmente não estava contribuindo com nada.
Tom olhou para seu superior. Não disse nada e retirou-se da sala.
Assim que Tom saiu, Vitor pegou o telefone celular. Tinha anotado o número. Em meio minuto, ele telefonava de volta. Talvez não fosse apenas um palpite.


Arthur e Grazielle estavam andando pelo shopping. Ela fazia uma sessão de compra. “Sabe como é, amor, quando uma mulher vê mais problemas que soluções em sua frente, ela resolve se encrencar com roupas, sapatos, bolsas ou livros. Eu me encrenco com tudo”. Ele apenas a acompanhava.
Quando Grazielle olhava alguns best sellers, o celular de Arthur começou a tocar.
- Amor, acho que é o seu celular – Grazielle pôs a mão no bolso da calça jeans manchada dele – Posso atender e dizer que esse número não é seu, se quiser – ela sorriu de modo divertido – Afinal, sei o quando você odeia atender a ligações.
Ele pegou o celular da mão dela.
- Pode deixar, amor – ele respondeu, guardando o celular de volta, assim que desligou o aparelho – Não é preciso nem me dar ao trabalho de atender.
Ela ergueu uma sobrancelha.
- Relaxa, baby – ele disse, curvando-se e sussurrando ao ouvido dela – Era a-penas algum inspetor idiota querendo me encher o saco.
Grazielle riu da piada antes de voltar sua atenção para os livros. Sempre posso contar com o Arth para saber como e quando me fazer rir.