Capítulo 4
Quando o assassino começa a se manifestar, quer dizer que ele saiu do papel. E agora, qual papel ele assume?
Comece a leituraCriança não deve
ficar fora da cama até tão tarde
- Não é possível que nem o departamento de polícia tenha conseguido mais alguma in-formação útil! – o inspetor esbravejava com seus homens. Em sua sala bem mobiliada com 2 poltronas confortáveis, persiana nas janelas e uma mesa de mogno, estava o pró-prio inspetor, o assistente dele conhecido como Tom e outros três policiais fardados. Paulo Vitor bufou e coçou o nariz – Repassem as últimas informações.
- Listamos alguns nomes de pintores que começam com M, A e S, senhor - anunciou Tom - Todavia, um bom número desses não é nem daqui do país...
- Só que, dessa lista - continuou outro policial. Ele era baixo, corpo forte e bela pele negra. Grandes olhos negros lhe preenchiam a face - três são das proximidades e se encaixam.
- Sendo que um deles, inclusive, já teve passagem pela polícia...
- E vocês acreditam que esse seja o nosso homem - completou o inspetor. - Será que sempre que eu entro nessa sala é para ouvir algum absurdo? – à por-ta, Grazielle trajava uma minissaia de couro preta, uma camisa de mangas compridas de moletom, na cor verde-musgo, uma meia-calça escura e um Jimmy Choo rajado de preto e branco. Deslumbrante – É claro que nosso assassino não é um delinqüente que teve passagem pela polícia. Devemos esperar muito mais dele do que uma passagem indiscreta. Tem que ser alguém com ficha limpa.
- O que veio fazer aqui hoje, Lorença? – indagou o inspetor, ignorando o que ela havia dito. Seu tom de voz era de quem adoraria dizer “Pode deixar que eu mesmo teria dito isso, se você não fosse tão intrometida”.
- Grazielle, inspetor – ela disse, aceitando a cadeira concedida por Tom. Era uma das confortáveis, resultando uma careta de desaprovação de Paulo Vitor. E um sor-riso vitorioso da própria Grazielle – Não estamos em países na qual pessoas são chama-das pelo sobrenome, estamos? – ela abriu um largo sorriso, acompanhada dos demais policiais. Ao que indicava, ela não sabia o quanto ela chamava atenção com seus míseros um metro e sessenta, sua ruiva cabeleira bem-penteada presa em um coque na parte detrás, deixando cair apenas uma mecha no lado direito do rosto, misturando-se às sar-das de seu rosto e acentuando seus olhos verdes – Embora o senhor já tenha dispensado os serviços do Marcelo, inspetor, creio que não possa fazer o mesmo comigo.
- Pois eu creio que eu possa, no momento em que eu decidir não investir nisso.
Ela sorriu da mesma forma irônica e indiferente que o namorado. Ignorando completamente a presença do inspetor, ela pegou um pequeno envelope de dentro do bolso do casaco e abriu-o. Passou o conteúdo do envelope para Tom e pediu que, assim que terminasse de olhar, passasse para outro colega.
- Devo lembrar que hoje é o dia do tal assassinato – disse o inspetor – E que – olhou o relógio – Daqui a exatamente três horas e quarenta e três minutos, o nosso as-sassino cometerá seu crime.
- Primeiro crime - a mulher disse - Apenas o primeiro crime.
As palavras pronunciadas fizeram alguns oficiais olharem para ela. O inspetor continua olhando para as fotos que não chegavam em suas mãos. Tom continuava o-lhando para as fotos. Vitor já havia pensado nisso.
- Nosso assassino não é uma pessoa comum - disse Grazielle, adiantando-se diante do olhar inquisitivo de uns - Aparentemente, ele sofre de distúrbio dissocial, o que faz dele um perigo - uma pequena pausa - Eu estive analisando as fotografias do quadro e andei procurando os endereços que sua equipe presumiu, inspetor. Ontem de noite eu coloquei isso em discussão com o professor Marcelo e outro artista - ela apontou para as fotos - O Galpão Velho na Cidade Baixa é exatamente como indica a tela que lhe foi enviada.
Vitor olhou para a psicóloga. Era uma chance.
- O Galpão está inutilizado há alguns anos - o inspetor confirmou, em voz baixa - Seria um lugar onde não descobririam a cena até alguém investir em algo por lá - ele parou. O relógio não estava ajudando - Tom, arranje uma equipe e vá imediatamente para o lugar. Vasculhem ao redor, não se deixem ser vistos.
- Não aconselho, inspetor.
Passos foram cessados.
- Nosso assassino, com certeza, está esperando que alguém seja mandado, logo, pode estar à espera - ela se sentou em uma das cadeiras. O simples ato de calmaria fez todos olharem-na como se fosse louca - Caso ele note alguém se aproximando, ele pode sair de lá. Eu não acho que ele vá deixar de fazer o assassinato apenas por ter gente per-to, então, se querem evitar, sejam pontuais.
- Pontuais com...?
- Com o horário do assassinato - ela sorriu de forma doentia - Acredito que ele não vá fugir do relógio.
As moscas já rondavam o corpo. O ambiente era fétido, embora, tirando as machas de sangue, bem limpo. Ao que indicava, alguém passara um tempo relativo ali limpando, tirando cada mancha do ambiente, pintando-o de branco e preenchendo a parede do fundo do cômodo com jornais. Era provável que ninguém percebesse, mas ali havia pistas. A única cor visível que não fosse vermelho e a cor do corpo do homem dependu-rado era a do álbum de fotografias posto abaixo de sua cabeça. O sangue logo tocaria o álbum, se não chegassem a tempo.
O carro seguia em alta velocidade. No volante, Paulo Vitor mostrava total controle, gui-ando o carro por entre a pista vazia. Uma das vantagens de lugares pequenos. No banco do carona, Grazielle olhava para os lados, ansiosa.
- Acha que conseguiremos chegar lá a tempo?
A pergunta dirigida a garota pegou-a de surpresa. A voz do homem estava pre-ocupada e sem nenhum toque de ironia.
- Não sei, inspetor – ela respondeu, ajeitando os cabelos – Eu estive pensando que pode ser tarde demais para nós – silêncio – Em lugar algum da carta, ele diz: “uma da tarde”, ou escreve o número “treze”. Ele apenas deixa o número 1.
- Entendo, doutora, contudo, não concordo – ele viu o olhar desaprovador da companheira e se explicou – Correção: eu não quero acreditar. Eu já pensei nisso, tanto que pus alguns policiais para rodarem pela cidade desde ontem, às 23.
- Eu não sabia disso...
- Agora sabe. Nenhum carro voltou com alguma notícia importante. Nada além de invasão de território, mas, ainda assim, nem foi para roubo. Foi feito por um jovem, para namorar.
Os dois riram.
Então, alguns minutos depois, o carro parou. A mulher reconheceu o galpão logo que saltou do carro. Ainda eram 12:53. Paulo Vitor seguiu à frente, empunhando a arma com a mão direita.
A falta de odor pútrido alimentou as esperanças do inspetor. Talvez sua teoria sobre a hora estivesse errada e o assassinato fosse ocorrer em 6 minutos. O tempo, agora, era o verdadeiro rival da dupla.
O galpão era grande.
Juntos, a psicóloga e o inspetor rondaram o galpão. Na outra entrada do galpão, havia um carro parado. Um carro antigo e comum. Sem fazer barulho, Vitor aproximou-se do carro. Dentro não havia ninguém.
- Olhe.
Grazielle apontava para o pára-brisa do carro.
A essa hora alguém já deve ter mordido a isca do Galpão. Iludidos. Por que acreditari-am em um completo desconhecido e não conseguem acreditar em um conhecido que lhes deixa uma dica? Paguem o preço da desconfiança.
Tom apenas apertou o número 1 no celular. A discagem rápida encarregou-se de concluir a ligação. Vitor atendeu no primeiro toque.
- Inspetor, más notícias - silêncio - Como sabia? Ah! - uma pausa - Sim, foi achado. O dono de uma boate local acabou de nos contatar. A cena do crime não ocor-reu em um galpão. Ocorreu na Boate Galpão.
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