E tudo se resume a fatos. Fatos, esses, que fazem toda diferença. Como discernir entre um fato agradável e um explicativo?

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Quem liga tem sempre
alguma coisa para falar



Ainda era de madrugada. Olhando o relógio do celular, Grazielle constatou que não passavam das duas. Ela tinha que ir até a delegacia pegar os resultados obtidos pelo pro-fessor Marcelo.
Seguindo no seu Ford KA, ela estacionou uma quadra antes do departamento de polícia. Atravessou as ruas apressada e penetrou o antiquado prédio, indo direto a sala do inspetor.
- Ah! – disse Tom, o assistente de Paulo Vitor – O inspetor saiu com o profes-sor há algum tempo.
- Para onde foram? – ela achou estranho que um homem tão idiota como o ins-petor saísse com o professor de artes da universidade federal local – Disseram?
- Não – Tom respondeu, pondo um punhado de papéis sobre uma poltrona – Eles não disseram nada.
Ele puxou uma cadeira para ela sentar.
- Quer um café?
- Aceito, sim, obrigada.
Os dois ficaram ali se olhando. Ele era um jovem bonito. Devia estar na casa dos vinte e pouco, quase trinta. Era alto, de pele azeitonada, cabelos espetados, cor de ébano, olhos agressivos; castanhos. Um belo corpo.
Ele foi pegar o café.
Já iam dar três da manhã quando o professor e o inspetor chegaram. Grazielle ainda estava sentada, com a xícara de café sobre o colo, o vestido já amarrotado, tama-nha a impaciência da moça.
O inspetor quis dar um salto ao vê-la ali. O professor sorriu afavelmente.
- Professor, estive esperando pelo senhor...
E a explicação recomeçou.
Os olhos de Grazielle não demonstraram expressão. Apenas seus lábios deram sinal de vida, quando ela os pressionou com força.
- Não concordo com sua idéia, professor – ela disse depois de desistir de sua xícara – Para que as iniciais batessem com a sua, seria necessário que o assassino sou-besse que o senhor está no caso – ela levantou e pôs-se à janela – e, a não ser que seja o senhor o assassino, coisa que duvido – ela se virou para olhar o inspetor – e também acredito que o nosso querido inspetor – a ironia brincou em seus lábios – não tenha al-guma ligação com o assassino, assim, eu falo ser coincidência.
Vitor tamborilou os dedos em sua mesa. Um pouco da falta de discordância habitual com as idéias da garota.
- Acho que por hoje podemos nos permitir ir para nossas residências – disse Tom, quebrando o silêncio da madrugada – Ou pelo menos vocês dois, já que eu...
- Pode ir também, Tom – disse Vitor. Sua voz estava cansada – Daqui a pouco eu também vou para casa.
Pouco tempo depois, Vitor viu-se sozinho em seu escritório. Ele sentia-se in-quieto por não ter uma pegada a seguir, embora tivesse com várias informações. Fechava as persianas de seu escritório e já caminhava para a porta...


- Ah! Achei que não viesse mais para casa hoje...
Arthur foi à porta e abraçou a namorada. Ela estava com o corpo frio.
- Da próxima vez, por favor, leve-me com você – ele sussurrou ao ouvido dela – Você não faz idéia de quão monótona é a televisão quando você não está em casa.
Beijos fizeram-se audíveis enquanto ele despia a roupa dela. Pendurando-se ao pescoço dele, ela chutou os sapatos que bateram em algum móvel. Nenhum barulho de algo se quebrando. Sem problemas.
- Arth, amor, acredito que amanhã – ela disse enquanto se deitava e ele tirava a roupa e deitava-se ao lado dela – eu vá passar o dia todo na delegacia.
- Algo de errado? – sua voz inocente fez com que fosse ela pega desprevenida por uma mão sorrateira. Ela sorriu.
- Apenas alguém que sabe montar quebra-cabeças.
- Se você continuar tão interessada nesse artista – ele sorriu enquanto apagava as luzes – eu começarei a achar que estou sendo traído.
- Bobo – ela se deitou sobre o peito dele – Já se esqueceste que me prendo a histórias que as pessoas viveram?


... Quando ouviu o telefone tocar.
- Alô?