Como saber diferenciar uma pista errônea de uma certo? Você conseguiria? Pode ser que sim, pode ser que não. Que tal se sentar em sua banheira velha e por-se a pensar?

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Banheira Velha



- Como assim?
Grazielle estava em casa, deitada sobre o peito do namorado. A ponta dos de-dos percorria o corpo do outro, coberto por um fino lençol.
- Isso mesmo – ela respondeu, levantando a cabeleira ruiva e ajeitando algumas mechas, pondo-as atrás da orelha – Foi entregue hoje, ao inspetor local, uma tela pintada em preto e vermelho. Devo dizer que, logo que vi o quadro, fiquei interessada na mente do pintor – ela ergueu uma sobrancelha bem-feita de modo tentador – Até hoje não tinha visto como era uma mente tão perturbada.
- O que tinha de tão especial na tela? – perguntou o rapaz, encarando a cabelei-ra ruiva, dona de belos olhos verdes – Se me disser que era uma réplica perfeita de al-gum quadro de Monet...
- Fala sério, Arthur – ela disse, mudando a cara sensual para uma hilária e zombeteira – Desde quando alguém que sabe copiar algum artista me interessa? – ela mordiscou os lábios dele – Se fosse assim, eu não iria sair com você, mas sim com aquele seu colega de faculdade, ou acha que não vi que ele faz réplicas melhores que as suas? – ela riu enquanto ele fingia estar ofendido – Não, é sério – ela voltou à seriedade – Não vejo uma cena tão macabra daquelas nem em filmes. O artista pôs algo que chegou a forçar a vista. Um fundo perfeito: um mural de jornais. Pendurado de cabeça para baixo, onde creio que fique o meio da tela, um corpo de um homem, nu, com vários pincéis cravados pelo corpo, começando no alto da testa e rodeando-o, até chegar ao dedão do pé esquerdo dele.
- Sério? – ele perguntou, pondo-se sobre ela – Muito interessante – ele beijou a boca dela – Agora – uma pausa – será que podemos conversar sobre isso em nossa ba-nheira velha, mais tarde?
E a luz fraca do abajur se extinguiu.


- Senhor, o Marcelo disse que achou três letras que podem indicar o autor da pintura e da carta.
Paulo Vitor, ouvindo isso, levantou-se de sua cadeira em um único salto e saiu de sua sala. Foi à sala em que o especialista estava e esperou, paciente, que o velho o notasse.
- Ah! Inspetor...
- Vitor, por favor.
- Certo – Marcelo disse, sorrindo – Creio que está para ouvir o que tenho a lhe dizer sobre o nosso artista. Ou devo informar-lhe que é uma artista?
Marcelo saboreou a cara do rude inspetor. Ele, com certeza, não esperava isso.
- Tem certeza do que está dizendo, professor? – sua voz indicava, claramente, um receio e um desapontamento – Quer dizer, não conheço muitas mulheres que admi-rem algo tão absurdo como essa tela.
- Ah, senhor inspetor – o velho disse calmamente, apreciando sua ignorância –, logo vejo que o senhor não conhece muito o mundo de hoje...
O velho olhou o relógio sobre a mesa. Uma da manhã. Pôs a mão em seu casaco que estava sobre o encosto da cadeira. Pegou a carta, vestiu o casaco e pegou suas chaves, pondo-as no bolso.
- Vamos, inspetor – vendo a cara atônita de Vitor, ele respondeu – Quer ou não quer saber o que descobri? Preciso de um suco e acredito que o senhor de um café ex-presso.
E saíram.


Arthur apareceu à porta do banheiro com a toalha pendendo sobre os ombros e de sam-ba-canção. A escova de dente balançando na boca enquanto ele afastava Grazielle com as mãos para enxaguar a boca.
- Hum – cuspiu –, mas você acha mesmo que o assassinato vai acontecer? – lavou a escova – Quero dizer, você disse que ele deixou isso claro na carta. Disse que seria em uma semana...
- A contar por ontem.
- Sim, por ontem – tirou a cueca e entrou no chuveiro – Mas, ainda assim, pôr a vigilância em alerta não parece um pouco exagerado? Quero dizer... Sei lá! Não creio que um assassino, por mais idiota que seja, vá falar quando ele vai matar, a hora e o lugar.
- Não – ela resmungou, de forma inteligível enquanto cuspia a pasta de dente e começava a pôr uma roupa – Ele não disse o lugar. Disse hora e data – vestiu um vestido roxo com um grande decote em V na parte de trás –, afinal, não estamos falando de um assassino qualquer – acertou o decote dos seios e põe um cordão de grandes contas brancas – Estamos falando, amor – calçou a sandália de salto cor de prata – de alguém... – sai do banheiro.
- Hei! – ele grita do chuveiro, abrindo o box e arrastando-se sobre o pano até o quarto – Vou tomar banho e dormir sozinho hoje?
-... Que me prendeu a atenção.
Encosta os lábios no lábio dele e sai de casa.


- É o seguinte, inspetor – o professor falou – Na carta, se for reparar, existem três pará-grafos. Inicialmente, acha-se que é por burrice ou falta de conhecimento no português – ele aponta para os três parágrafos da fotocópia da carta – Deve ter percebido que os três parágrafos poderiam ser postos todos em um só.
- Sim, percebi sim.
- Então, aqui vem a primeira... – a garçonete chega e pergunta o que querem – Um suco sem açúcar para mim, por favor. De melão.
- Um café tradicional para mim – ela já ia saindo quando ele pediu – em um copo e torradas, por favor.
Marcelo sorriu.
- A primeira pista – ele aponta para a última letra de cada parágrafo – Não foi acidental colocar “M”, “A” e “S”.
Ele puxou uma foto da tela de dentro do bolso do casaco e colocou sobre a mesa. Pegou uma caneta e começou a circular alguns elementos da página. Quando terminou, tinha circulado uma nota musical, que estava no canto inferior da foto, um pedaço do jornal, na parte superior, e outro pedaço do jornal, mais abaixo.
- M – jornal superior –, A – jornal inferior – S – nota musical.
- E o que elas querem dizer?
- Quer dizer que alguém pode estar brincando conosco.
O inspetor olhou-o. Era óbvio que alguém estava brincando com ele!
- Eu explico, caro inspetor - o velho, agora, aceitou a provocação de um pe-queno sorriso nervoso - Essas letras podem ser de vários nomes... Inclusive o meu pró-prio.