Que se abram os fatos: a história se começa, chegam os mistérios, a ironia e os personagens. Às vezes, é melhor não se simpatizar com personagem nenhum. Pode ser que ele não goste de você. Ou pode ser que ele não sobreviva.

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Ânimo anônimo,
talvez um sinônimo



O inspetor já estava nervoso.
- Não é possível que não consigam identificar o autor dessa porcaria! – ele ber-rava com seus assistentes – Afinal, é assim? Qualquer pessoa pode chegar na porcaria da porta delegacia, pôr um caixa com um cartão endereçado a mim que vocês me entregam como se fosse normal eu receber presentes?
- Mas, senhor, era uma caixa bonita...
- É e letra de mulher na carta...
- UMA CAIXA BONITA?! ENTÃO É DISSO QUE OS ASSASSINOS PRECISAM? DE UMA CAIXA BONITA? – ele começou a atropelar suas próprias palavras inteligíveis. Parou para tentar respirar um pouco; bufante – Eu quero – ele disse por entre os dentes alguns minutos depois – saber quem pintou essa aberração.
Os dois assistentes do inspetor assentiram e saíram da sala dele. Os dois ainda puderam ouvir um “macabro” sendo murmurado pelo chefe e um copo se quebrando. Propositalmente.


O casal caminhava silenciosamente. A multidão ao redor deles é que fazia barulho. Eles não. Eram dois mudos apaixonados, sorvendo da noite que há pouco começara a alegria estonteante sentida por amantes. A vida.
O destino da caminhada chegou ao fim quando ambos sentaram-se frente a frente em um restaurante agradável. Não era sofisticado, contudo era confortável. O clima do ambiente era rústico. Perfeito para dois seres humanos que estavam entrando na fase adulta da vida. Todos deviam provar a vida de responsabilidade com um pouco mais de amor, assim, quem sabe, conseguiriam vê-la com olhos menos céticos.
Os dois pediram uma porção de fritas de entrada e pão sírio. Uma mistura fora do comum, mas que os “saídos da adolescência” aproveitaram sorrindo.
- Alê – ela murmurou, quando terminaram de jantar, puxando-o pela mão – vamos para minha casa? Meus pais saíram ontem e só voltam amanhã de tarde...


- Vitor – falou o assistente, entrando na sala novamente – chamamos Marcelo, um espe-cialista em pintura e uma garota nova que veio junto do velho... Eles estão esperando pelo senhor...
- Mande-os entrar, Tom – respondeu o inspetor, levantando de sua cadeira ain-da com cara passada.
Adentraram a porta um homem já quase na aposentadoria e uma moça que tinha cara de ser recém-formada em algum curso para doidos.
- Senhor inspetor, boa noite – saudou o mais velho. Seu rosto era sem barba e sem bigode, embora tivesse espessas sobrancelhas grisalhas, que atenuavam com os curtos cabelos brancos. O olho tinha uma cor próxima ao âmbar e era bem instruído, habilidade aprendida com o decorrer dos anos. Estatura mediana – Disseram que o se-nhor recebeu um quadro com uma arte... singular...
Vitor, ouvindo o que foi dito pelo senhor, foi à mesa e desvirou a tela que esta-va sobre ela. A pintura ao fundo branco podia ser descrita pela palavra pronunciada pelo inspetor: macabra.
Apenas isso para descrever aquela pintura.
- Devo confessar, senhor inspetor – continuou o velho ao ver o quadro –, que não esperava algo assim...
O velho aproximou-se da pintura e, aceitando as luvas descartáveis concedidas por Tom, começou a examiná-la. Os traços eram amplos e espalhafatosos, parecendo borrões, contudo, a imagem era perfeitamente legível e bem-feita. Obra de alguém com talento nato para pintura. As cores eram bem utilizadas – embora houvesse apenas ver-melho e preto na tela branca – e o contorno do desenho bem traçado.
- Creio que todos conseguem enxergar que aqui – o velho apontou para um desenho preto no centro da tela – está um corpo pendurado de cabeça para baixo, preso pelos pés com uma corda, aparentemente, grossa e forte. Aqui – ele desce o dedo para o chão abaixo da cabeça do corpo – está o que parece ser um álbum de fotografias, o mo-tivo desse álbum deixo para a Grazielle nos dizer – ele olhou para a tela uma vez mais – Aqui atrás, na parede ao fundo, temos um mural, pois, como podem perceber, está re-pleto de reportagens de jornal. E, talvez o mais interessante, talvez, seja o que ele quis dizer com essa tinta vermelha na boca do nosso companheiro – apontou para a boca – e para essa tinta vermelha no chão, ao redor do álbum...
- E essas manchas negras pelo corpo dele? Não sou especialista em arte, pro-fessor – disse Paulo Vitor –, contudo, isso me parece prego...
- Pincéis.
A mulher – que agora sabiam se chamar Grazielle – fez seu primeiro pronunci-amento.
- Se repararem com um pouco de vontade verdadeira – ela zombou – vão notar que esses objetos estacados no corpo dele são pincéis. Temos um artista aqui – ela disse, olhando para o quadro – que gosta de arte.
Paulo Vitor franziu o cenho e olhou para a garota com um olhar inquisitivo.
- Bom, acredito, moça, que um artista goste de arte por ser o que ele é.
- Logo se percebe, inspetor – Grazielle sibilou –, que o senhor pouco sabe sobre arte – ela quase cuspiu as palavras – Repare nos traços – ela apontou para o contorno com a tampa de uma caneta tirada do bolso da calça jeans – foi feito com a mão direita. O artista está querendo brincar com você, inspetor. Logo se vê que ele quer chamar atenção para a boca dele e eu acredito que essa mancha vermelha no chão seja o sangue da própria vítima.
Ela fez uma pausa avaliando o quanto chamara atenção. Ótimo, pensou consigo mesma, assim eu vou vencendo esse ambiente machista.
- Temos em cena – “literalmente falando”, brincou um dos assistentes. Ignorado – alguém com sérios distúrbios psicológicos. Arrisco-me a dizer que nosso pintor é alguém que perdeu alguém próximo na infância – apontou para o álbum fotográfico – e, portanto, gosta de ter recordações. É provável que tenha visto o assassinato desse al-guém próximo – uma vez mais apontou para o álbum –, caso contrário, o álbum seria entregue direto a você, inspetor, e não deixado na cena do crime.
Ela andou até a mesa e pegou um par de luvas descartáveis que estavam ali. Calçou-as e estendeu as mãos, pedindo a tela ao inspetor
- Se me permite... Aqui – disse apontando para o fundo, onde ficava o mural falado pelo professor de artes – e aqui – apontou para duas notas musicais soltas – indi-cam pistas. Uma música e, aposto o que quiserem, que nesses recortes de jornais existe algo oculto.
Todos ficaram em silêncio por um tempo.
- Sua idéia seria perfeita, Grazielle – disse Paulo Vitor, puxando o quadro da mão dela – Não fosse o fato que esse assassinato não ocorreu.