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Resumo

Uma história, onde, desde o início, você sabe quem é o assassino e quem o procura. A questão é: quando ele vai errar? Quantas encomendas chegarão para nosso destemido inspetor até que ele consiga alcançar? E, o mais interessante: como serão essas encomendas?
Um assassino, um inspetor, uma psicóloga e muitas mortes. Com quem você se identifica?
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Capítulo 6

Toda criança já teve um cachorro. Mas o que acontece com as crianças que crescem ainda querendo um?

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Aquele esquema de cores com defeito logo o indicou a realidade que era seu sonho. Novamente.
Vitor localizou-se. Sua imagem real estava presa diante dos olhos de um garoto. Mas aquele garoto não olhava para ele e sim para além dele. E ele já sabia com quem toparia ao virar de costas.
- Vitinho tá com medo? – saudou aquela voz tão conhecida – Ou tá com ciú-mês? Vai, Vitinho, corre pra mamãe e diz o que aconteceu!
E a risada explodiu.



No quarto escuro, o inspetor Paulo Vitor mexia-se inquieto em sua cama. O relógio em seu pulso marcava duas da matina. Sozinho, em sua cama de casal, se alguém o visse acharia estar acordado. Mas seus olhos estavam fechados e era a respiração acelerada que enganaria um visitante.


- Não – o garotinho disse, apertando os lábios e enxugando os olhos –, eu não vou falar com a mamãe...
O mais velho parou de rir. Ele não esperava essa reação do caçula. Talvez o
Vitinho começasse a ver que seria inútil falar com a mãe inválida dos dois.
- Sabia escolha, maninho – disse, aproximando-se do garoto e pondo a mão sobre sua cabeça – Pode deixar que eu te dou um belo presente amanhã...
-... Porque eu sei que a mamãe não vai conseguir fazer nada – continuou o garoto, como se, agora, tivesse tomado a coragem que havia começado – Então, eu vou até a polícia e falo com o papai.



O visitante o via pela janela. Ele adorava pessoas que moravam em casas baixas. Sempre gostou de ver a confiança que as pessoas tem em coisas são pequenas. Mas o visitante gostava disso. Segurança.
Aproximou mais o rosto da janela, encostando-o nela. O vidro estava gelado. Era uma graça o residente ter esquecido a cortina aberta aquela noite. Ou isso ou talvez fossem aqueles minutos em que o visitante estivera dentro da casa preparando a surpresa para o pobre inspetor.
Eu sei exatamente o que quero, doce Vitinho. Você sempre me tentou e eu sempre fui do tipo que gosta de maçãs*.


O menino caiu.
- Você não vai a merda de lugar nenhum.
Vitor estava sob o corpo do irmão mais velho, preso ao chão, com uma arma apontada para sua cabeça. A dúvida entre respirar e viver lhe atingira em cheio. Doía tanto quanto o soco que levara no rosto, há poucos segundos antes.
- Sabe por quê? – continuou o irmão. O tom de ameaça calma fazia o garoto perceber a seriedade – Porque você não vai querer morrer antes de fazer 10 anos... ou vai?
O garoto apenas sacudiu a cabeça. Não chorava.
- Bom menino – respondeu o mais velho, desencostando o revolver da testa do garoto. Ainda prendia o irmão ao chão. Vitor permitiu-se respirar – Pensando bem...
O gatilho foi puxado.



Suado, com dor de cabeça e de difícil respiração, Vitor acordou em seu quarto escuro e demorou a perceber que estivera sonhando. O mesmo pesadelo que marcara a sua infân-cia.
Levantou-se, foi a cozinha e bebeu um copo de água. Estava gelada demais. Bebeu outro e começou a fazer café.
Então reparou. Sobre a mesa da cozinha, uma caixa. Aquela caixa não estivera ali antes de dormir e ele não se lembrava de ser sonâmbulo. Nem de ter aquela caixa.
Abriu a gaveta da cozinha e puxou duas facas de corte. Foi ao quarto, atento, e pegou seu revolver embaixo da cama. Acendeu a casa toda, após verificar cada cômodo. Não havia ninguém em casa, a não ser ele. Voltou para a cozinha e para seu café. Mais tarde ligaria para a delegacia e mandaria alguém fazer vistoria em sua casa.
A caixa o incomodou.
Então reparou que, na frente dela, havia uma fotografia. Um cão morto que pareceria dormir, salvo o fato que escorria sangue de um ponto preto em sua testa.
Vitor abriu a caixa e, dentro, um filhote de cachorro dormia tranquilamente. Um filhote exatamente igual ao cachorro da foto. Sua versão mais nova. O inspetor o-lhou a parte de trás da foto.

Algumas pessoas merecem uma segunda chance de ficar com quem gosta, caro inspetor. Aproveite-a bem.


* nota do autor: aqui o visitante faz ligação ao fruto proibido e a relação de aceitar provocações.

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Capítulo 5

A identificação de um corpo é quando começam a ver os traços de uma pista. Só que essa pista pode ser muito longíqua. Ou infinita.

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Nem toda mentira contada
deixa de ser verdade



- O indivíduo se chama Alexandre Maciel, tem 18 anos. Não sei quanto a sua vida, afi-nal, não é para isso que sou pago – ele fala. O corpo ainda estava descoberto sobre a mesa. E despido – Todavia, na análise, obtive alguns resultados, só que um desses resul-tados, realmente me chamou atenção – uma pausa – Vou explicar o motivo da morte – ele viu os olhares dos policiais cobrando –, as observações são coisas minuciosas de um velho...
O legista calçou as luvas descartáveis e ofereceu um pacote com um par a cada um presente.
- Continue, por favor, doutor.
- Certo, certo – o velho se aproximou do corpo – Como podem ver, o corpo foi perfurado em diversos lugares com as pontas de pincéis e, constatei, essa foi a causa da morte.
- Está nos dizendo – lentamente Paulo Vitor disse, como quem não ousasse pronunciar as próximas palavras – que a vítima estava viva ao ver cada um desses pincéis penetrarem seu corpo?
- Sim, Vitor – o médico-legista confirmou. Paulo Vitor viu-se assaltado por medo, repulsa, ódio e um sentimento incompreensível – Pelas análises, pude ver que o primeiro lugar que ele cravou um pincel foi aqui – e apontou para o rasgo de carne já enegrecida que ficava no pé esquerdo da vítima – Como podem ver, ele foi subindo em espiral até que chegou aqui – apontou para os testículos da vítima – Aqui o choque foi tão grande que ele teve um espasmo de lucidez e, depois, desacordou completamente.
- Espasmo de lucidez?
- Ah, sim, o corpo estava dopado. Foi achada uma quantidade excessiva de Dramin em seu corpo. Esse remédio é usado para evitar náusea, inibindo a acetilcolina nos sistemas vestibular e reticular, responsável pela náusea. Contudo, esse atua, também, reduzindo a pressão arterial, assim, causando sonolência no indivíduo. Assim, como podem imaginar, foi mais fácil para o nosso assassino cometer seus atos hediondos com a vítima sem que ela gritasse – ele abriu a boca do cadáver – Claro, e o fato de ele ter cortado a língua da vítima também ajuda.
- Como?
- Duas informações que me deixaram curioso – o médico falou, erguendo o indicador e o dedo médio – A primeira é essa da língua. Não vejo motivo para cortar a língua da vítima...
- Nosso assassino é um possível sociopata, talvez até um serial killer – Grazielle informou ao doutor, fazendo os olhos do outro brilharem de interesse – Espero que se lembre que não se pode esperar muita coisa deles, a não ser uma marca registrada.
- Sim, sim – ele deu um pequeno sorriso – Isso responde à curiosidade um. Todavia, ainda me resta uma observação a fazer: encontrei em seus testículos pêlos de púbis, o que indica...
- Que ele teve uma relação sexual há pouco tempo – Paulo Vitor disse, já vol-tando comum irritação – Sabemos o que quer dizer, doutor – um a pausa, não quebrada por ninguém, então o inspetor continuou – Se o senhor não tem mais nenhuma informa-ção a acrescentar, creio que voltarei para minha sala. Tenho que informar a família do garoto.
- Sim, sim. Mais nada a acrescentar...
Paulo Vitor se retirou, seguido pelos outros policiais.
- Ah! – disse o miúdo médico excêntrico – Bela moça, poderia informar ao inspetor que a vítima morreu de cabeça para baixo?
- Sim, já sabemos, doutor. Afinal, acredito que todos tenham visto a cena do crime...
- Não, minha querida – ele disse afavelmente – Não viram? Ele não morreu lá. Aquilo foi apenas uma montagem para assustar. A vítima morreu entre 12 e 14 do dia anterior... Sendo muito provável que ele tenha morrido próximo das 13.
Grazielle encarou o doutor. Seus olhos estavam incrédulos.
- Ele teve o corpo transferido para aquele galpão – continuou – Afinal, se ele tivesse matado o corpo lá, ele teria deixado alguma pista, e, como sabem, não há ne-nhuma marca no corpo que não seja a das agressões dos pincéis. Nenhuma digital, ne-nhum pêlo de roupa... E, o principal, o sangue dele teria pingado e escorrido para, exa-tamente, acima do álbum, que, se não me engano, estava limpo – uma pequena pausa – E outro: aquele lugar foi totalmente limpo. Paredes pintadas, montado aquele mural... tudo minuciosamente arquitetado. Se nosso assassino tivesse matado a vítima lá, teria sangue por todo o cômodo e não apenas aquele pequeno círculo em torno das fotografias. E, claro, assim só resta o sangue ter sido montado ali.


- Acredito que todos nessa sala já haviam pensando nisso, Lorença – foi a resposta do inspetor Vitor ao ouvir as informações adicionais. Ele voltara a ignorar o primeiro nome dela – Não é nenhum adicional o que nos disse.
Como se tivesse levado uma bofetada na cara, Grazielle estacou e ergueu as sobrancelhas. Mau humor de volta à cena.
- Por sinal, por que não se retira por hoje?
A pergunta seria uma gratificação. Se tivesse vindo de outra pessoa, se não tivesse aquela insinuação de “se você não pode/consegue fazer nada, é melhor não atrapalhar”. Ela teria sorrido com o clichê de “dê-lhe a outra face”. Não fosse o fato que lhe haviam roubado o direito de escolha.
Pôs um sorriso nos lábios.
- Boa tarde, Tom.


- Claro, amor, não há nenhum problema – Arthur estava no celular com Grazielle – Na verdade, acho que vai ser bem interessante se você aparecer por aqui. Eu estou na reta final daquele quadro que pretendia lhe fazer segredo – ele ouviu um pouco – É, esse mesmo. Então, eu continuarei a não deixar você ver ele – ele sorriu maliciosamente – Mas deixarei o quadro de lado assim que chegar aqui...
Enquanto falava, ele ergueu os olhos para a prateleira ao lado da porta. Seu pequeno atelier era bagunçado e o cheiro de tinta se mistura ao de poeira e de algum cheiro forte que vinha de uma lata em um banco alto. Ele mantinha um pincel na mão esquerda enquanto falava ao celular. Na tela, um casala sentado em um banco. Vagamente, a imagem dos dois juntos, e da paisagem que se mistura às roupas, lembrava um coração.
-... Óbvio que sim – ele parou por mais um segundo – Ok, amor. Deixa eu desligar, caso contrário, você vai chegar e eu não terei escondido a tela.
Pôs o pequeno aparelho ao lado da lata. Olhou ao redor. Era a bagunça habitual. Muito bem organizada, obrigado. Duas telas foram retiradas da sala.


- Era mesmo necessário dizer isso a ela, Vitor?
O inspetor ignorou a pergunta.
- Esse caso não é o único caso que temos, Tom – ele sorriu – E ela realmente não estava contribuindo com nada.
Tom olhou para seu superior. Não disse nada e retirou-se da sala.
Assim que Tom saiu, Vitor pegou o telefone celular. Tinha anotado o número. Em meio minuto, ele telefonava de volta. Talvez não fosse apenas um palpite.


Arthur e Grazielle estavam andando pelo shopping. Ela fazia uma sessão de compra. “Sabe como é, amor, quando uma mulher vê mais problemas que soluções em sua frente, ela resolve se encrencar com roupas, sapatos, bolsas ou livros. Eu me encrenco com tudo”. Ele apenas a acompanhava.
Quando Grazielle olhava alguns best sellers, o celular de Arthur começou a tocar.
- Amor, acho que é o seu celular – Grazielle pôs a mão no bolso da calça jeans manchada dele – Posso atender e dizer que esse número não é seu, se quiser – ela sorriu de modo divertido – Afinal, sei o quando você odeia atender a ligações.
Ele pegou o celular da mão dela.
- Pode deixar, amor – ele respondeu, guardando o celular de volta, assim que desligou o aparelho – Não é preciso nem me dar ao trabalho de atender.
Ela ergueu uma sobrancelha.
- Relaxa, baby – ele disse, curvando-se e sussurrando ao ouvido dela – Era a-penas algum inspetor idiota querendo me encher o saco.
Grazielle riu da piada antes de voltar sua atenção para os livros. Sempre posso contar com o Arth para saber como e quando me fazer rir.


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Capítulo 4

Quando o assassino começa a se manifestar, quer dizer que ele saiu do papel. E agora, qual papel ele assume?

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Criança não deve
ficar fora da cama até tão tarde



- Não é possível que nem o departamento de polícia tenha conseguido mais alguma in-formação útil! – o inspetor esbravejava com seus homens. Em sua sala bem mobiliada com 2 poltronas confortáveis, persiana nas janelas e uma mesa de mogno, estava o pró-prio inspetor, o assistente dele conhecido como Tom e outros três policiais fardados. Paulo Vitor bufou e coçou o nariz – Repassem as últimas informações.
- Listamos alguns nomes de pintores que começam com M, A e S, senhor - anunciou Tom - Todavia, um bom número desses não é nem daqui do país...
- Só que, dessa lista - continuou outro policial. Ele era baixo, corpo forte e bela pele negra. Grandes olhos negros lhe preenchiam a face - três são das proximidades e se encaixam.
- Sendo que um deles, inclusive, já teve passagem pela polícia...
- E vocês acreditam que esse seja o nosso homem - completou o inspetor. - Será que sempre que eu entro nessa sala é para ouvir algum absurdo? – à por-ta, Grazielle trajava uma minissaia de couro preta, uma camisa de mangas compridas de moletom, na cor verde-musgo, uma meia-calça escura e um Jimmy Choo rajado de preto e branco. Deslumbrante – É claro que nosso assassino não é um delinqüente que teve passagem pela polícia. Devemos esperar muito mais dele do que uma passagem indiscreta. Tem que ser alguém com ficha limpa.
- O que veio fazer aqui hoje, Lorença? – indagou o inspetor, ignorando o que ela havia dito. Seu tom de voz era de quem adoraria dizer “Pode deixar que eu mesmo teria dito isso, se você não fosse tão intrometida”.
- Grazielle, inspetor – ela disse, aceitando a cadeira concedida por Tom. Era uma das confortáveis, resultando uma careta de desaprovação de Paulo Vitor. E um sor-riso vitorioso da própria Grazielle – Não estamos em países na qual pessoas são chama-das pelo sobrenome, estamos? – ela abriu um largo sorriso, acompanhada dos demais policiais. Ao que indicava, ela não sabia o quanto ela chamava atenção com seus míseros um metro e sessenta, sua ruiva cabeleira bem-penteada presa em um coque na parte detrás, deixando cair apenas uma mecha no lado direito do rosto, misturando-se às sar-das de seu rosto e acentuando seus olhos verdes – Embora o senhor já tenha dispensado os serviços do Marcelo, inspetor, creio que não possa fazer o mesmo comigo.
- Pois eu creio que eu possa, no momento em que eu decidir não investir nisso.
Ela sorriu da mesma forma irônica e indiferente que o namorado. Ignorando completamente a presença do inspetor, ela pegou um pequeno envelope de dentro do bolso do casaco e abriu-o. Passou o conteúdo do envelope para Tom e pediu que, assim que terminasse de olhar, passasse para outro colega.
- Devo lembrar que hoje é o dia do tal assassinato – disse o inspetor – E que – olhou o relógio – Daqui a exatamente três horas e quarenta e três minutos, o nosso as-sassino cometerá seu crime.
- Primeiro crime - a mulher disse - Apenas o primeiro crime.
As palavras pronunciadas fizeram alguns oficiais olharem para ela. O inspetor continua olhando para as fotos que não chegavam em suas mãos. Tom continuava o-lhando para as fotos. Vitor já havia pensado nisso.
- Nosso assassino não é uma pessoa comum - disse Grazielle, adiantando-se diante do olhar inquisitivo de uns - Aparentemente, ele sofre de distúrbio dissocial, o que faz dele um perigo - uma pequena pausa - Eu estive analisando as fotografias do quadro e andei procurando os endereços que sua equipe presumiu, inspetor. Ontem de noite eu coloquei isso em discussão com o professor Marcelo e outro artista - ela apontou para as fotos - O Galpão Velho na Cidade Baixa é exatamente como indica a tela que lhe foi enviada.
Vitor olhou para a psicóloga. Era uma chance.
- O Galpão está inutilizado há alguns anos - o inspetor confirmou, em voz baixa - Seria um lugar onde não descobririam a cena até alguém investir em algo por lá - ele parou. O relógio não estava ajudando - Tom, arranje uma equipe e vá imediatamente para o lugar. Vasculhem ao redor, não se deixem ser vistos.
- Não aconselho, inspetor.
Passos foram cessados.
- Nosso assassino, com certeza, está esperando que alguém seja mandado, logo, pode estar à espera - ela se sentou em uma das cadeiras. O simples ato de calmaria fez todos olharem-na como se fosse louca - Caso ele note alguém se aproximando, ele pode sair de lá. Eu não acho que ele vá deixar de fazer o assassinato apenas por ter gente per-to, então, se querem evitar, sejam pontuais.
- Pontuais com...?
- Com o horário do assassinato - ela sorriu de forma doentia - Acredito que ele não vá fugir do relógio.

As moscas já rondavam o corpo. O ambiente era fétido, embora, tirando as machas de sangue, bem limpo. Ao que indicava, alguém passara um tempo relativo ali limpando, tirando cada mancha do ambiente, pintando-o de branco e preenchendo a parede do fundo do cômodo com jornais. Era provável que ninguém percebesse, mas ali havia pistas. A única cor visível que não fosse vermelho e a cor do corpo do homem dependu-rado era a do álbum de fotografias posto abaixo de sua cabeça. O sangue logo tocaria o álbum, se não chegassem a tempo.


O carro seguia em alta velocidade. No volante, Paulo Vitor mostrava total controle, gui-ando o carro por entre a pista vazia. Uma das vantagens de lugares pequenos. No banco do carona, Grazielle olhava para os lados, ansiosa.
- Acha que conseguiremos chegar lá a tempo?
A pergunta dirigida a garota pegou-a de surpresa. A voz do homem estava pre-ocupada e sem nenhum toque de ironia.
- Não sei, inspetor – ela respondeu, ajeitando os cabelos – Eu estive pensando que pode ser tarde demais para nós – silêncio – Em lugar algum da carta, ele diz: “uma da tarde”, ou escreve o número “treze”. Ele apenas deixa o número 1.
- Entendo, doutora, contudo, não concordo – ele viu o olhar desaprovador da companheira e se explicou – Correção: eu não quero acreditar. Eu já pensei nisso, tanto que pus alguns policiais para rodarem pela cidade desde ontem, às 23.
- Eu não sabia disso...
- Agora sabe. Nenhum carro voltou com alguma notícia importante. Nada além de invasão de território, mas, ainda assim, nem foi para roubo. Foi feito por um jovem, para namorar.
Os dois riram.
Então, alguns minutos depois, o carro parou. A mulher reconheceu o galpão logo que saltou do carro. Ainda eram 12:53. Paulo Vitor seguiu à frente, empunhando a arma com a mão direita.
A falta de odor pútrido alimentou as esperanças do inspetor. Talvez sua teoria sobre a hora estivesse errada e o assassinato fosse ocorrer em 6 minutos. O tempo, agora, era o verdadeiro rival da dupla.
O galpão era grande.
Juntos, a psicóloga e o inspetor rondaram o galpão. Na outra entrada do galpão, havia um carro parado. Um carro antigo e comum. Sem fazer barulho, Vitor aproximou-se do carro. Dentro não havia ninguém.
- Olhe.
Grazielle apontava para o pára-brisa do carro.


A essa hora alguém já deve ter mordido a isca do Galpão. Iludidos. Por que acreditari-am em um completo desconhecido e não conseguem acreditar em um conhecido que lhes deixa uma dica? Paguem o preço da desconfiança.


Tom apenas apertou o número 1 no celular. A discagem rápida encarregou-se de concluir a ligação. Vitor atendeu no primeiro toque.
- Inspetor, más notícias - silêncio - Como sabia? Ah! - uma pausa - Sim, foi achado. O dono de uma boate local acabou de nos contatar. A cena do crime não ocor-reu em um galpão. Ocorreu na Boate Galpão.

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Capítulo 3

E tudo se resume a fatos. Fatos, esses, que fazem toda diferença. Como discernir entre um fato agradável e um explicativo?

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Quem liga tem sempre
alguma coisa para falar



Ainda era de madrugada. Olhando o relógio do celular, Grazielle constatou que não passavam das duas. Ela tinha que ir até a delegacia pegar os resultados obtidos pelo pro-fessor Marcelo.
Seguindo no seu Ford KA, ela estacionou uma quadra antes do departamento de polícia. Atravessou as ruas apressada e penetrou o antiquado prédio, indo direto a sala do inspetor.
- Ah! – disse Tom, o assistente de Paulo Vitor – O inspetor saiu com o profes-sor há algum tempo.
- Para onde foram? – ela achou estranho que um homem tão idiota como o ins-petor saísse com o professor de artes da universidade federal local – Disseram?
- Não – Tom respondeu, pondo um punhado de papéis sobre uma poltrona – Eles não disseram nada.
Ele puxou uma cadeira para ela sentar.
- Quer um café?
- Aceito, sim, obrigada.
Os dois ficaram ali se olhando. Ele era um jovem bonito. Devia estar na casa dos vinte e pouco, quase trinta. Era alto, de pele azeitonada, cabelos espetados, cor de ébano, olhos agressivos; castanhos. Um belo corpo.
Ele foi pegar o café.
Já iam dar três da manhã quando o professor e o inspetor chegaram. Grazielle ainda estava sentada, com a xícara de café sobre o colo, o vestido já amarrotado, tama-nha a impaciência da moça.
O inspetor quis dar um salto ao vê-la ali. O professor sorriu afavelmente.
- Professor, estive esperando pelo senhor...
E a explicação recomeçou.
Os olhos de Grazielle não demonstraram expressão. Apenas seus lábios deram sinal de vida, quando ela os pressionou com força.
- Não concordo com sua idéia, professor – ela disse depois de desistir de sua xícara – Para que as iniciais batessem com a sua, seria necessário que o assassino sou-besse que o senhor está no caso – ela levantou e pôs-se à janela – e, a não ser que seja o senhor o assassino, coisa que duvido – ela se virou para olhar o inspetor – e também acredito que o nosso querido inspetor – a ironia brincou em seus lábios – não tenha al-guma ligação com o assassino, assim, eu falo ser coincidência.
Vitor tamborilou os dedos em sua mesa. Um pouco da falta de discordância habitual com as idéias da garota.
- Acho que por hoje podemos nos permitir ir para nossas residências – disse Tom, quebrando o silêncio da madrugada – Ou pelo menos vocês dois, já que eu...
- Pode ir também, Tom – disse Vitor. Sua voz estava cansada – Daqui a pouco eu também vou para casa.
Pouco tempo depois, Vitor viu-se sozinho em seu escritório. Ele sentia-se in-quieto por não ter uma pegada a seguir, embora tivesse com várias informações. Fechava as persianas de seu escritório e já caminhava para a porta...


- Ah! Achei que não viesse mais para casa hoje...
Arthur foi à porta e abraçou a namorada. Ela estava com o corpo frio.
- Da próxima vez, por favor, leve-me com você – ele sussurrou ao ouvido dela – Você não faz idéia de quão monótona é a televisão quando você não está em casa.
Beijos fizeram-se audíveis enquanto ele despia a roupa dela. Pendurando-se ao pescoço dele, ela chutou os sapatos que bateram em algum móvel. Nenhum barulho de algo se quebrando. Sem problemas.
- Arth, amor, acredito que amanhã – ela disse enquanto se deitava e ele tirava a roupa e deitava-se ao lado dela – eu vá passar o dia todo na delegacia.
- Algo de errado? – sua voz inocente fez com que fosse ela pega desprevenida por uma mão sorrateira. Ela sorriu.
- Apenas alguém que sabe montar quebra-cabeças.
- Se você continuar tão interessada nesse artista – ele sorriu enquanto apagava as luzes – eu começarei a achar que estou sendo traído.
- Bobo – ela se deitou sobre o peito dele – Já se esqueceste que me prendo a histórias que as pessoas viveram?


... Quando ouviu o telefone tocar.
- Alô?

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Capítulo 2

Como saber diferenciar uma pista errônea de uma certo? Você conseguiria? Pode ser que sim, pode ser que não. Que tal se sentar em sua banheira velha e por-se a pensar?

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Banheira Velha



- Como assim?
Grazielle estava em casa, deitada sobre o peito do namorado. A ponta dos de-dos percorria o corpo do outro, coberto por um fino lençol.
- Isso mesmo – ela respondeu, levantando a cabeleira ruiva e ajeitando algumas mechas, pondo-as atrás da orelha – Foi entregue hoje, ao inspetor local, uma tela pintada em preto e vermelho. Devo dizer que, logo que vi o quadro, fiquei interessada na mente do pintor – ela ergueu uma sobrancelha bem-feita de modo tentador – Até hoje não tinha visto como era uma mente tão perturbada.
- O que tinha de tão especial na tela? – perguntou o rapaz, encarando a cabelei-ra ruiva, dona de belos olhos verdes – Se me disser que era uma réplica perfeita de al-gum quadro de Monet...
- Fala sério, Arthur – ela disse, mudando a cara sensual para uma hilária e zombeteira – Desde quando alguém que sabe copiar algum artista me interessa? – ela mordiscou os lábios dele – Se fosse assim, eu não iria sair com você, mas sim com aquele seu colega de faculdade, ou acha que não vi que ele faz réplicas melhores que as suas? – ela riu enquanto ele fingia estar ofendido – Não, é sério – ela voltou à seriedade – Não vejo uma cena tão macabra daquelas nem em filmes. O artista pôs algo que chegou a forçar a vista. Um fundo perfeito: um mural de jornais. Pendurado de cabeça para baixo, onde creio que fique o meio da tela, um corpo de um homem, nu, com vários pincéis cravados pelo corpo, começando no alto da testa e rodeando-o, até chegar ao dedão do pé esquerdo dele.
- Sério? – ele perguntou, pondo-se sobre ela – Muito interessante – ele beijou a boca dela – Agora – uma pausa – será que podemos conversar sobre isso em nossa ba-nheira velha, mais tarde?
E a luz fraca do abajur se extinguiu.


- Senhor, o Marcelo disse que achou três letras que podem indicar o autor da pintura e da carta.
Paulo Vitor, ouvindo isso, levantou-se de sua cadeira em um único salto e saiu de sua sala. Foi à sala em que o especialista estava e esperou, paciente, que o velho o notasse.
- Ah! Inspetor...
- Vitor, por favor.
- Certo – Marcelo disse, sorrindo – Creio que está para ouvir o que tenho a lhe dizer sobre o nosso artista. Ou devo informar-lhe que é uma artista?
Marcelo saboreou a cara do rude inspetor. Ele, com certeza, não esperava isso.
- Tem certeza do que está dizendo, professor? – sua voz indicava, claramente, um receio e um desapontamento – Quer dizer, não conheço muitas mulheres que admi-rem algo tão absurdo como essa tela.
- Ah, senhor inspetor – o velho disse calmamente, apreciando sua ignorância –, logo vejo que o senhor não conhece muito o mundo de hoje...
O velho olhou o relógio sobre a mesa. Uma da manhã. Pôs a mão em seu casaco que estava sobre o encosto da cadeira. Pegou a carta, vestiu o casaco e pegou suas chaves, pondo-as no bolso.
- Vamos, inspetor – vendo a cara atônita de Vitor, ele respondeu – Quer ou não quer saber o que descobri? Preciso de um suco e acredito que o senhor de um café ex-presso.
E saíram.


Arthur apareceu à porta do banheiro com a toalha pendendo sobre os ombros e de sam-ba-canção. A escova de dente balançando na boca enquanto ele afastava Grazielle com as mãos para enxaguar a boca.
- Hum – cuspiu –, mas você acha mesmo que o assassinato vai acontecer? – lavou a escova – Quero dizer, você disse que ele deixou isso claro na carta. Disse que seria em uma semana...
- A contar por ontem.
- Sim, por ontem – tirou a cueca e entrou no chuveiro – Mas, ainda assim, pôr a vigilância em alerta não parece um pouco exagerado? Quero dizer... Sei lá! Não creio que um assassino, por mais idiota que seja, vá falar quando ele vai matar, a hora e o lugar.
- Não – ela resmungou, de forma inteligível enquanto cuspia a pasta de dente e começava a pôr uma roupa – Ele não disse o lugar. Disse hora e data – vestiu um vestido roxo com um grande decote em V na parte de trás –, afinal, não estamos falando de um assassino qualquer – acertou o decote dos seios e põe um cordão de grandes contas brancas – Estamos falando, amor – calçou a sandália de salto cor de prata – de alguém... – sai do banheiro.
- Hei! – ele grita do chuveiro, abrindo o box e arrastando-se sobre o pano até o quarto – Vou tomar banho e dormir sozinho hoje?
-... Que me prendeu a atenção.
Encosta os lábios no lábio dele e sai de casa.


- É o seguinte, inspetor – o professor falou – Na carta, se for reparar, existem três pará-grafos. Inicialmente, acha-se que é por burrice ou falta de conhecimento no português – ele aponta para os três parágrafos da fotocópia da carta – Deve ter percebido que os três parágrafos poderiam ser postos todos em um só.
- Sim, percebi sim.
- Então, aqui vem a primeira... – a garçonete chega e pergunta o que querem – Um suco sem açúcar para mim, por favor. De melão.
- Um café tradicional para mim – ela já ia saindo quando ele pediu – em um copo e torradas, por favor.
Marcelo sorriu.
- A primeira pista – ele aponta para a última letra de cada parágrafo – Não foi acidental colocar “M”, “A” e “S”.
Ele puxou uma foto da tela de dentro do bolso do casaco e colocou sobre a mesa. Pegou uma caneta e começou a circular alguns elementos da página. Quando terminou, tinha circulado uma nota musical, que estava no canto inferior da foto, um pedaço do jornal, na parte superior, e outro pedaço do jornal, mais abaixo.
- M – jornal superior –, A – jornal inferior – S – nota musical.
- E o que elas querem dizer?
- Quer dizer que alguém pode estar brincando conosco.
O inspetor olhou-o. Era óbvio que alguém estava brincando com ele!
- Eu explico, caro inspetor - o velho, agora, aceitou a provocação de um pe-queno sorriso nervoso - Essas letras podem ser de vários nomes... Inclusive o meu pró-prio.

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Capítulo 1

Que se abram os fatos: a história se começa, chegam os mistérios, a ironia e os personagens. Às vezes, é melhor não se simpatizar com personagem nenhum. Pode ser que ele não goste de você. Ou pode ser que ele não sobreviva.

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Ânimo anônimo,
talvez um sinônimo



O inspetor já estava nervoso.
- Não é possível que não consigam identificar o autor dessa porcaria! – ele ber-rava com seus assistentes – Afinal, é assim? Qualquer pessoa pode chegar na porcaria da porta delegacia, pôr um caixa com um cartão endereçado a mim que vocês me entregam como se fosse normal eu receber presentes?
- Mas, senhor, era uma caixa bonita...
- É e letra de mulher na carta...
- UMA CAIXA BONITA?! ENTÃO É DISSO QUE OS ASSASSINOS PRECISAM? DE UMA CAIXA BONITA? – ele começou a atropelar suas próprias palavras inteligíveis. Parou para tentar respirar um pouco; bufante – Eu quero – ele disse por entre os dentes alguns minutos depois – saber quem pintou essa aberração.
Os dois assistentes do inspetor assentiram e saíram da sala dele. Os dois ainda puderam ouvir um “macabro” sendo murmurado pelo chefe e um copo se quebrando. Propositalmente.


O casal caminhava silenciosamente. A multidão ao redor deles é que fazia barulho. Eles não. Eram dois mudos apaixonados, sorvendo da noite que há pouco começara a alegria estonteante sentida por amantes. A vida.
O destino da caminhada chegou ao fim quando ambos sentaram-se frente a frente em um restaurante agradável. Não era sofisticado, contudo era confortável. O clima do ambiente era rústico. Perfeito para dois seres humanos que estavam entrando na fase adulta da vida. Todos deviam provar a vida de responsabilidade com um pouco mais de amor, assim, quem sabe, conseguiriam vê-la com olhos menos céticos.
Os dois pediram uma porção de fritas de entrada e pão sírio. Uma mistura fora do comum, mas que os “saídos da adolescência” aproveitaram sorrindo.
- Alê – ela murmurou, quando terminaram de jantar, puxando-o pela mão – vamos para minha casa? Meus pais saíram ontem e só voltam amanhã de tarde...


- Vitor – falou o assistente, entrando na sala novamente – chamamos Marcelo, um espe-cialista em pintura e uma garota nova que veio junto do velho... Eles estão esperando pelo senhor...
- Mande-os entrar, Tom – respondeu o inspetor, levantando de sua cadeira ain-da com cara passada.
Adentraram a porta um homem já quase na aposentadoria e uma moça que tinha cara de ser recém-formada em algum curso para doidos.
- Senhor inspetor, boa noite – saudou o mais velho. Seu rosto era sem barba e sem bigode, embora tivesse espessas sobrancelhas grisalhas, que atenuavam com os curtos cabelos brancos. O olho tinha uma cor próxima ao âmbar e era bem instruído, habilidade aprendida com o decorrer dos anos. Estatura mediana – Disseram que o se-nhor recebeu um quadro com uma arte... singular...
Vitor, ouvindo o que foi dito pelo senhor, foi à mesa e desvirou a tela que esta-va sobre ela. A pintura ao fundo branco podia ser descrita pela palavra pronunciada pelo inspetor: macabra.
Apenas isso para descrever aquela pintura.
- Devo confessar, senhor inspetor – continuou o velho ao ver o quadro –, que não esperava algo assim...
O velho aproximou-se da pintura e, aceitando as luvas descartáveis concedidas por Tom, começou a examiná-la. Os traços eram amplos e espalhafatosos, parecendo borrões, contudo, a imagem era perfeitamente legível e bem-feita. Obra de alguém com talento nato para pintura. As cores eram bem utilizadas – embora houvesse apenas ver-melho e preto na tela branca – e o contorno do desenho bem traçado.
- Creio que todos conseguem enxergar que aqui – o velho apontou para um desenho preto no centro da tela – está um corpo pendurado de cabeça para baixo, preso pelos pés com uma corda, aparentemente, grossa e forte. Aqui – ele desce o dedo para o chão abaixo da cabeça do corpo – está o que parece ser um álbum de fotografias, o mo-tivo desse álbum deixo para a Grazielle nos dizer – ele olhou para a tela uma vez mais – Aqui atrás, na parede ao fundo, temos um mural, pois, como podem perceber, está re-pleto de reportagens de jornal. E, talvez o mais interessante, talvez, seja o que ele quis dizer com essa tinta vermelha na boca do nosso companheiro – apontou para a boca – e para essa tinta vermelha no chão, ao redor do álbum...
- E essas manchas negras pelo corpo dele? Não sou especialista em arte, pro-fessor – disse Paulo Vitor –, contudo, isso me parece prego...
- Pincéis.
A mulher – que agora sabiam se chamar Grazielle – fez seu primeiro pronunci-amento.
- Se repararem com um pouco de vontade verdadeira – ela zombou – vão notar que esses objetos estacados no corpo dele são pincéis. Temos um artista aqui – ela disse, olhando para o quadro – que gosta de arte.
Paulo Vitor franziu o cenho e olhou para a garota com um olhar inquisitivo.
- Bom, acredito, moça, que um artista goste de arte por ser o que ele é.
- Logo se percebe, inspetor – Grazielle sibilou –, que o senhor pouco sabe sobre arte – ela quase cuspiu as palavras – Repare nos traços – ela apontou para o contorno com a tampa de uma caneta tirada do bolso da calça jeans – foi feito com a mão direita. O artista está querendo brincar com você, inspetor. Logo se vê que ele quer chamar atenção para a boca dele e eu acredito que essa mancha vermelha no chão seja o sangue da própria vítima.
Ela fez uma pausa avaliando o quanto chamara atenção. Ótimo, pensou consigo mesma, assim eu vou vencendo esse ambiente machista.
- Temos em cena – “literalmente falando”, brincou um dos assistentes. Ignorado – alguém com sérios distúrbios psicológicos. Arrisco-me a dizer que nosso pintor é alguém que perdeu alguém próximo na infância – apontou para o álbum fotográfico – e, portanto, gosta de ter recordações. É provável que tenha visto o assassinato desse al-guém próximo – uma vez mais apontou para o álbum –, caso contrário, o álbum seria entregue direto a você, inspetor, e não deixado na cena do crime.
Ela andou até a mesa e pegou um par de luvas descartáveis que estavam ali. Calçou-as e estendeu as mãos, pedindo a tela ao inspetor
- Se me permite... Aqui – disse apontando para o fundo, onde ficava o mural falado pelo professor de artes – e aqui – apontou para duas notas musicais soltas – indi-cam pistas. Uma música e, aposto o que quiserem, que nesses recortes de jornais existe algo oculto.
Todos ficaram em silêncio por um tempo.
- Sua idéia seria perfeita, Grazielle – disse Paulo Vitor, puxando o quadro da mão dela – Não fosse o fato que esse assassinato não ocorreu.

In:

Prólogo

Quando uma história começa, é preciso conseguir prender atenção da pessoa desde a primeira linha. E o que melhor que uma criança, arte e uma pitada de suspense para isso?

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Arte, uma pitada de sangue,
prosa e poesia.


Ele estava escondido atrás de um dos quadros da mãe. Ele não se mexia e apenas ouvia a irmã sussurrar para as paredes. Ela fazia isso todos os dias, à tarde. Era a primeira vez que Arthur ficava tão próximo.
O nome daquilo que ela fazia, ele não sabia. Entretanto, sua irmã parecia uma menina mais madura. Ela falava palavras bonitas. Anos mais tarde, ele veio a descobrir que o nome daquilo que ela falava era poesia. Claro. Descobriu que ela não “falava” ela “declamava”. Porém, com três anos de idade é difícil saber essas palavras. São compli-cadas.
Naquele dia em especial, a mãe deles não estava no atelier, o que era um mila-gre. Ela sempre passava quase todas as horas da tarde dela em seu cantinho favorito. Sentada em um banquinho, com uma paleta de tintas na mão direita e um pincel na es-querda, trabalhando em alguma tela posta sobre um cavalete de madeira bonita dela. A mãe dos gêmeos era um doce de mulher. E conhecida.
Maria Clara Gaerde se recusara a ter o sobrenome do marido em seu nome, dizendo que ela queria ser lembrada com seu próprio nome, então, jamais colocou o nome “Bizerra” no fim. E foi assim que ela passou a assinar suas telas. A princípio, ela era apenas mais uma pintora, quase anônima, no meio de tantos talentos. Então, depois do nascimento de seus filhos, ela ganhou uma nova inspiração e passou a ser conhecida. O suficiente para ter seu atelier cheio em cada uma de suas exposições. O mesmo para conseguir uma boa quantia em dinheiro por cada um de seus quadros. Algo que, pode ter certeza, faria ela se arrepender pelo resto de sua vida. Será que seria por muito tempo?
Naquela tarde fatídica – a qual deu início à história – havia, espalhadas pelo galpão, umas telas em branco.
E no meio delas, estava Cecília. Cecília, sua poesia. E um homem.
O tal homem.
- Menina, aconselho que fique calada – disse o estranho, pondo a mão no om-bro da garotinha. Deve-se saber que não se fala baixo e alarmante com uma menina de três anos, todavia, ele não sabia – O titio só vai pegar o dinh...
E Cecília pôs-se a gritar. Chamou pela mãe, pelo irmão. Alguém, ela já havia gritado. Mas antes de uma resposta voltar, ocorre um estouro. O barulho ecoa pelo cô-modo, vaza pelas janelas e atraí mais gente que o grito da pobre criança. Na porta do atelier, a mãe e o pai. Dentro, o assassino, a garota e o menino. A menina tombada sobre uma tela.
O garoto a soluçar.


Anos se passam. O assassino ainda sofre psicologicamente pelo assassinato de uma cri-ança, entretanto deve sofrer mais por estar na prisão. A mãe dos gêmeos já está morta – mas isso ainda vai ser explicado – e o pai já arranjou outra esposa e uma outra filha (que acaba de nascer). O irmão sobrevivente – coitado – ainda está vivo. Não se pode dizer o mesmo das pessoas ao seu redor, uma vez que ele gosta de brincar com elas.
E a tela “pintada” a sangue ainda existe. Escondida entre tralhas e lixos no só-tão da casa velha. Mas ele ainda tem 13 anos aqui. Relaxe, a história vai seguir.